A promessa da mediação segundo Folger*

O professor Joseph Folger, em videoconferência no I Congresso Argentino de Mediação, fez algumas advertências muito importantes sobre a mediação e os rumos que ela vem tomando. Folger é um dos fundadores da escola de mediação conhecida como transformativa que, em apertada síntese, vê o conflito como uma crise de interação entre as pessoas e a mediação como uma oportunidade de transformação das relações através da revalorização das pessoas, do empoderamento e do reconhecimento recíproco entre elas[1].

Ele expos a sua forma de abordar a mediação no livro que escreveu em coautoria com Robert Bush, cujo título em português é a Promessa da Mediação. Segundo Folger o livro levou este nome pois a mediação prometia um monte de coisas para as partes. No entanto, depois de muitos anos, ele entende que grande parte dos benefícios oferecidos pela mediação efetivamente se tornaram promessas não cumpridas, ao menos nos Estados Unidos. Ele baseia a sua crítica na forma pela qual a mediação foi se implementando no país, ficando cada vez mais distante da promessa original. Ele tem muita razão no que está dizendo.

Na conferência realizada no congresso ele disse que em muitos programas de mediação os mediadores têm sido os grandes protagonistas do processo e exercem um controle excessivo sobre a comunicação entre as partes e os rumos da mediação. Ainda disse que isso faz com que e mediação tenha se tornando um instituto muito mais próximo à arbitragem, na qual o terceiro exerce um papel o principal no processo e decide, do que à mediação propriamente dita. O modelo adotado de uma forma ampla no Brasil é um perfeito exemplo disso, no qual conciliadores controlam a comunicação entre as pessoas, analisam os casos segundo seus pontos de vista e valores pessoais, assim como propõem soluções e intervêm ativamente no acordo.

Folger disse que isso vai contra os fundamentos da mediação e entende que o mais adequado é deixar as partes livres para se comunicarem, negociarem e decidirem da forma que estão acostumadas, e o mediador deve sempre evitar interferir neste processo. Quando o mediador atua de uma forma mais diretiva faz com que as partes percam a sua autodeterminação e isso acaba por desvirtuar o instituto da mediacao.

O professor afirmou também que isto ocorre pois os mediadores não estão capacitados para se sentirem à vontade diante de situações de conflitos e também não sabem como enfrentar situações difíceis. Por isso, buscam evitar que as partes briguem ou que um grande atrito seja produzido durante a mediação. Para ele isso é normal e os mediadores não devem evitar este tipo de situação, devem encarar este problema sem receio que isso comprometa o processo de mediação.

Também disse que muitas vezes os mediadores estabelecem regras de comunicação que não respeitam a forma natural das partes dialogarem e que utilizam as perguntas de uma forma excessiva, quando na verdade o ideal seria ajudar as partes a se comunicarem com o mínimo de intervenção possível. Ainda afirmou que muitas vezes os mediadores tentam proteger as partes de tomarem decisões consideradas erradas ou equivocadas e que isso deve ser evitado para que a autodeterminação das pessoas possa ser respeitada no processo de mediação.

Outra crítica feita por ele é a forma com que os programas de mediação são feitos, em sua grande parte focados no resultado e no acordo. O Brasil com a sua política de conciliação é um exemplo deste tipo e abordagem criticada por Folger. Por isso, o alerta feito no I Congresso Argentino de Mediação para os argentinos, que diga-se de passagem privilegiam muito mais a mediação do que a conciliação, pode ser muito importante para todos os profissionais que buscam o desenvolvimento da mediação no Brasil de uma forma séria e que respeite os usuários do serviço.

Para evitar que a mediação continue sendo apenas uma promessa ele sugere que os mediadores se centrem nas qualidades do processo, no que de fato é a mediação, na sua essência, e porque ela é única e especial. Os dois pontos chaves da mediação que devem ser preservados, segundo Folger, são a autodeterminação das partes, devemos sempre lembrar que elas são as protagonistas do processo e não os mediadores, e o poder “humanizante” do diálogo, pois na mediação as pessoas tem a possibilidade de dialogar e isto deve ser facilitado com o mínimo de intervenção possível. É importante a mediação não perder estas características. Outro grande desafio é mudar o enfoque dos programas de mediação – e conciliação, no nosso caso – da busca pelo acordo para o tratamento das relações entre as pessoas em situação de conflito.

A apresentação de Folger foi muito enriquecedora e de certa forma todas estas críticas nos fazem refletir sobre o que oferecemos às pessoas e o que de fato estamos fazendo. Gostaria de terminar este texto com uma autorreflexão proposta pelo professor Folger: durante os processos de mediação de que forma você se sente incomodado com a interação livre entre as partes e como lida com isso?

  • Este texto é baseado em anotações feitas pelo autor durante no I Congresso Argentino de Mediação, não é uma transcrição literal das falas do palestrante, assim como a palestra foi proferida em inglês.

Leia também

O que é a mediação

Justiça restaurativa

[1] Bush, R.A.B., Folger, J.P., The Promise of Mediation, New and Revised Edition, 2005, San Francisco, Jossey-Bass.

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By | 2017-09-26T16:24:48+00:00 outubro 28th, 2016|mediação|

No Comments

  1. Rosangela Dantas Lima 1 de novembro de 2016 at 11:19 - Reply

    É preciso que haja uma conscientização, uma “educação para Mediação, primeiramente, de todos os envolvidos diretamente nela…Tribunais de Justiça, Centros de Mediação, Ministério Público, Universidades e Faculdades interessadas verdadeiramente, em estabelecer a Mediação, coma a Porta de Entrada para uma Sociedade Civilizada e aberta ao Diálogo como fonte de (re)evolução humana.

    • Flavio de Freitas Gouvea Neto 1 de novembro de 2016 at 11:40 - Reply

      Concordo Rosangela, é muito importante que todos os envolvidos tratarem deste tema e buscarem sempre o desenvolvimento de uma forma profissional da mediação. Obrigado

  2. Edison Nascimento Webster 10 de novembro de 2016 at 11:35 - Reply

    Sim, humanizar buscando restabelecer as relações comerciais e sociais. Da mesma forma valorizar o papel do Mediador & Conciliador. Obrigado Dra Andréa por compartilhar, vale nossa reflexão. Fraterno abraço a todos.

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