A experiência de um Hackathon Jurídico

Tive a oportunidade de participar de um hackathon jurídico, promovido pela Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), uma competição de programação que contou com a participação de profissionais e estudantes de diferentes áreas – técnicos informáticos, programadores, designers, engenheiros, advogados, entre outras áreas – e teve como objetivo desenvolver uma solução para as demandas legais com o uso da tecnologia do blockchain.

O nome hackathon diz um pouco sobre o que é o evento, uma maratona na qual os participantes, em uma jornada ininterrupta, assistem palestras, conversam com mentores e em equipes idealizam, discutem, criam e desenvolvem um modelo de negócio, códigos de computador e uma solução para o objetivo proposto com o uso da tecnologia.

Nesta edição, as equipes foram formadas no início do sábado e tiveram até o dia seguinte para apresentar uma “proposta” nova e os códigos da aplicação eletrônica. Os mentores apoiaram os times durante todo momento e ao final as equipes apresentaram aos jurados as ideias e soluções em “pitchs” de três minutos de duração cada. Foram 30 horas de muito trabalho e diversão, uma grande jornada de autoconhecimento, desenvolvimento, trabalho em equipe e colaboração.

A escolha do tema foi excelente. Estamos em um momento no qual começam aparecer no âmbito jurídico as primeiras aplicações da tecnologia do blockchain, que surgiu há quase exatos 10 anos, com a criação da primeira criptomoeda, o Bitcoin. Entender o blockchain não é tarefa fácil, sabemos que ele existe, imaginamos algumas aplicações práticas, mas entender ao fundo a sua estrutura de programação e como criar e modificar as coisas com o blockchain ainda é algo muito desafiador.

Nove soluções foram apresentadas, muitas delas com um potencial incrível de serem desenvolvidas neste momento ou aparecem nos próximos anos. Pode-se destacar o uso de “smart contracts” pelos advogados, o registros de dados, documentos e provas eletrônicas, a criptografia aplicada à comunicação e até mesmo ferramentas de gestão jurídica, comunicação e acompanhamento de atividades e processos.

Foi uma experiência incrível, compartilho algumas coisas que pude extrair desta jornada.

As possibilidades são infinitas e a criatividade é fundamental

A criatividade ajuda a resolver questões complexas e devemos sempre criar ambientes para que as pessoas possam ser criativas.

Uma das principais características do um hackathon são as possibilidades infinitas de se criar soluções. As equipes fazem muitos “brainstorms” e exercícios nos quais a criatividade é fundamental para formular novas ideias e desenhar como seria na prática a solução a ser apresentada. A criatividade dos participantes é colocada à prova do começo ao fim. Durante a jornada fomos descobrindo novas opções e validando elas. A cada opção que era descartada a nossa criatividade na busca de outra era fundamental. Quanto mais as pessoas podem usar a sua criatividade, mais alternativas surgem, e provavelmente os resultados alcançados serão melhores. Ao final, os resultados de um hackathon são totalmente imprevisíveis, já que o uso de novas tecnologias aplicadas às diferentes áreas e demandas pode resultar em soluções nunca antes pensadas ou trabalhadas.

Entender a dor e os problemas dos clientes

Por mais que você acredite ter uma boa ideia, você deve empatizar com o seu público alvo para saber o que ele realmente sente e necessita.

Para apresentar boas soluções é fundamental entender a dor das pessoas. Neste caso, o objetivo era desenvolver uma ferramenta para os advogados. Decidimos iniciar empatizando com as dores dos advogados através de uma pesquisa. Descobrimos, entre outras coisas, que os advogados já utilizam a internet como a principal fonte de pesquisa, muitos têm receio que a tecnologia substitua o seu trabalho, assim como sentem-se insatisfeitos com tarefas “mecânicas” e a gestão do tempo. Partindo deste ponto, entendemos um pouco qual seria o nosso público alvo, a nossa “persona”, e pudemos desenvolver uma solução que atendia as necessidades deles. Isso vale para qualquer negócio, é importante entender quem são os clientes, os seus principais problemas e necessidades, para oferecer serviços que sejam necessários e que transformem a vida deles.

Desapego às ideias e começar do zero

Começar do zero pode ser a melhor opção e “pivotar” quando for necessário é uma atitude determinante para o sucesso.

Durante a competição iniciamos com algumas ideias que poderiam ser legais. Chegamos a trabalhar horas em uma solução que teve que ser abandonada pois identificamos muitas falhas, inclusive com ajuda dos mentores, que muitas vezes questionaram a viabilidade e as razões pelas quais estávamos trilhando um determinado caminho. Em uma competição de 30 horas é bem difícil mudar a direção do trabalho e chegar à conclusão que a ideia que estava sendo trabalhada deve ser descartada (na verdade, ainda que a ideia seja mudada, a experiência pode ser aproveitada). Muitas vezes nos encontramos em uma zona de conforto, apegados às nossas ideias e ao nosso passado, e temos medo de mudar, devemos evitar isso. A sociedade é dinâmica e muitas vezes é preciso abandonar verdades e transformar as nossas práticas, para que elas possam acompanhar as necessidades e as novas demandas.

Interagir com as pessoas e trabalhar em equipe

Você conhece pessoas, trabalha com parceiros e, quem sabe, também faz amigos para a vida toda.

O que eu mais gostei do hackathon foi a oportunidade de conhecer pessoas e trabalhar com estudantes e profissionais que provavelmente eu jamais teria estado junto. A interação e o networking entre as pessoas ocorre do começo ao fim. Para quem gosta de conhecer gente o evento pode ser muito proveitoso. A atmosfera é fantástica. Ir em eventos profissionais e fazer networking as vezes pode ser uma atividade chata, existem até pesquisas que tratam sobre o assunto, mas quando você está em um desafio tudo fica mais divertido e espontaneamente você começa a conhecer e conversar com os participantes. Outra característica da competição é o trabalho em equipe. A comunicação entre os participantes é essencial para alcançar um bom resultado. O equilíbrio de uma equipe depende de um ambiente no qual os membros possam expressar as suas ideias, serem escutados e compreendidos pelos demais. Não é fácil acabar de conhecer uma pessoa e começar a trabalhar junto à ela e esta é uma das coisas mais interessantes que o evento pode propiciar.

Superar desafios, aprender e crescer

Um hackathon é uma ótima oportunidade para aprender mais sobre como a tecnologia pode ser aplicada no nosso dia-a-dia.

O hackathon é uma verdadeira prova de resistência, muito parecido com um “reality show” do tipo “No Limite”. Durante a maratona há altos e baixos, os problemas e dificuldades aparecem em todos momentos e é necessário lidar com os desafios e alcançar rapidamente respostas para o projeto continuar e ser entregue no prazo estabelecido. Descobrir a nossa capacidade de criar coisas novas e apresentar soluções em um espaço tão curto de tempo é fantástico. Para os advogados é importante ter consciência que muitas das respostas para os desafios atuais da profissão não podem ser encontradas dentro da ciência jurídica. Em um hackathon jurídico, o advogado interage com profissionais de diversas áreas e pode aprender muito sobre “design thinking”, tecnologia, programação, marketing e negócios, disciplinas importantíssimas nos tempos atuais e que não são ensinadas nos cursos e faculdades de direito. Eu entendia muito pouco sobre o blockchain, apesar de estar acompanhando o assunto há algum tempo, mas a possibilidade de desenvolver com a aplicação desta tecnologia me fez em um curto espaço de tempo compreender melhor as possibilidades, dificuldades e desafios relacionados com o assunto.

Além disso, também é uma oportunidade de trabalhar o nosso autoconhecimento, o que nos ajuda a crescer como pessoa e lidar melhor com os desafios da nossa profissão.

By |2019-01-16T01:01:59+00:00novembro 16th, 2018|Direito Empresarial|0 Comments

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